Carl Ranson Rogers
(1902-1987)
Anita Bacellar
Joana Simielli
Tatiana Renaux Tomaselli Fundador da Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Ranson Rogers foi um renomado
psicólogo americano do século XX. No contexto da psicologia clínica
foi o primeiro psicólogo a exercer a função de psicoterapeuta e o
pioneiro no interesse pela pesquisa científica em psicoterapia. Como
integrante do movimento humanista, contribuiu com a consolidação
dos princípios da Psicologia Humanista fundando uma abordagem terapêutica
que acredita no potencial humano, na sua capacidade de modificar-se
e atualizar-se no sentido do crescimento saudável.
Rogers cresceu numa família com fortes princípios
religiosos onde o trabalho duro era tido como virtude. Diferente
da maioria das famílias da redondeza, tinham uma vida social restrita
e quase exclusivamente dedicada ao trabalho. A atmosfera familiar
era afetuosa, mas não existia uma convivência profunda entre eles,
o que somado a pouca vida social, fazia Rogers a sentir-se solitário
e refugiar-se na leitura incessante. (Rogers, 2001) Quando os filhos
se tornaram adolescentes, a família mudou-se para uma fazenda, ficando
ainda mais afastada do mundo externo. Nestes anos, Rogers interessou-se
pelo estudo das borboletas e pela agricultura racional, esta última
fundamentada pelo interesse do pai em organizar uma fazenda com base
científica. Estas duas atividades tiveram influência sobre o trabalho
futuro do psicólogo e pesquisador. (Rogers, 2001)
Assim, motivado pelo pai desde jovem a empenhar-se em atividades
lucrativas, participou ativamente das atividades da fazenda.
O cuidado com as galinhas e com outros animais desde o nascimento
lhe forneceu
a base para a compreensão da ciência através da prática. Além
disso, Rogers cita a leitura do livro Feeds and Feelling, como
uma precoce
fundamentação teórica sobre as formas de se elaborar pesquisas
científicas, criando grupos de controle e testando hipóteses. (Rogers,
2001)
Mais tarde foi para Wisconsin estudar agricultura na faculdade. Decorridos
dois anos, passou a interessar-se pela religião e optou pelo sacerdócio,
matriculando-se na faculdade de história como uma preparação. No
primeiro ano, foi escolhido, com outros estudantes para uma viagem
a China, onde entrou em contato com religiões orientais, e libertou-se
da visão religiosa de seus pais. (Rogers, 2001)
Em 1924, entrou para o Union Theological Seminary, o seminário mais
liberal da época, nos EUA. Ali, junto com alguns colegas participou
da organização do que se poderia considerar o primeiro seminário
centrado no grupo, um seminário sem orientador cuja intenção era
a exploração de questões de interesse do próprio grupo. Neste grupo,
que se tornou altamente satisfatório e enriquecedor, Rogers optou
por desistir da vida religiosa para encontrar uma área em que a livre
expressão foi possível, ou seja, um caminho em que pudesse compreender
a si mesmo sem que Deus estivesse, obrigatoriamente, presente na
caminhada. (Rogers, 2001)
Na própria Union começa a interessar-se pelas conferências de psicologia
e psiquiatria que estavam iniciando. Fez vários cursos na Universidade
de Colúmbia, no Teacher´s College e depois começou a trabalhar com
filosofia da religião e em seguida a realizar trabalhos clínicos
práticos com crianças. Daí para tornar-se psicólogo foi apenas um
passo, decorrente apenas da escolha pelas atividades que lhe despertavam
interesse. (Rogers, 2001)
Seguindo seu rumo, foi aceito como interno no Instituto para a Orientação
da Criança, onde entrou em contato com as idéias psicanalíticas.
A visão da psicanálise era completamente diferente das técnicas científicas
rigorosas que tinha estudado até então, o que lhe impulsionou no
sentido da resolução de um conflito decorrente do choque de visões
tão distintas. (Rogers, 2001)
Em busca de um emprego para sustentar seu doutorado, foi trabalhar
no centro de estudos Child Study Department, em Rochester. Nos oito
anos seguintes trabalhou exclusivamente com crianças sem condições
financeiras de um tratamento particular, enviadas pelo Estado. Como
não havia um método científico de controle dos resultados, sua forma
de trabalho foi sendo construída a partir da experiência até que
entre erros e acertos concluiu que o melhor era deixar que o cliente
desse “a direção do movimento do processo terapêutico.” (Rogers,
2001: 13)
Naquela época, foi percebendo que seu trabalho afastava-se do típico
trabalho da psicologia, cheio de regras e medições e se aproximava
mais da assistência social. Chegou a duvidar de que era um psicólogo,
mas mesmo assim foi deixando-se guiar pelos seus sentimentos, independente
dos colegas e do grupo. Começou a lecionar no curso de Sociologia
sobre como tratar crianças problemas, depois na Pedagogia e somente
mais tarde no Instituto de Psicologia de Rochester. Nesta época também
teve seus dois filhos, o que, segundo ele, ensinou-lhe muito sobre
o indivíduo, sua evolução e suas relações.
Em 1940, depois da publicação da sua primeira obra Clinical Treatment
of the Problem Child, passou a lecionar em Ohio como professor efetivo.
A partir daí, percebe, no contato com seus estudantes, como havia
desenvolvido uma perceptiva de trabalho pessoal, elaborada através
dos anos de prática. (Rogers, 2001) Rogers só teve consciência da
originalidade do seu pensamento quando foi confrontado com as reações
provocadas pela conferência que fez na Universidade de Minnesota
no dia 11 de dezembro de 1940. Nesse dia, Rogers tornou público sua
proposta para um novo modelo de psicoterapia, um modelo que tinha
como objetivo principal contribuir com o processo de crescimento
das pessoas, deixando de lado a visão de psicoterapia como a solução
de um problema em particular.
Mesmo assim acreditando ter algo a comunicar, escreveu em 1942, seu
segundo livro, Counseling and Psychotherapy, o primeiro sobre aconselhamento
centrado no cliente, que no início deixou o editor em dúvida sobre
uma demanda suficiente, mas depois se tornando um sucesso de vendas.
(Rogers, 2001)
Rogers construiu seu diferencial de psicoterapia sustentado na existência
de uma tendência individual para o crescimento e saúde, na ênfase
dos elementos emocionais em detrimentos dos intelectuais, na priorização
do presente em detrimento do passado e no reconhecimento do papel
da relação terapêutica na experiência de crescimento. Em defesa da
idéia de que a personalidade humana tende a saúde e ao bem-estar,
Rogers desenvolveu atitudes facilitadoras e recursos interventivos
que permitem o resgate do potencial realizador existentes em todo
ser humano.
Nesse sentido, sua proposta transfere a importância da técnica para
as atitudes do terapeuta, prioriza a capacidade do cliente para a
auto-atualização das suas potencialidades e, finalmente, valoriza
a potencialidade terapêutica da relação.
A partir de 1940, verifica-se a consolidação e a evolução das suas
idéias através das inúmeras publicações, representadas em livros
e artigos científicos. Dos 16 livros publicados se destacam: “Terapia
Centrada no Cliente” (1951), “Tornar-se Pessoa”(1961) e “Um Jeito
de Ser” (1980)
Em Terapia Centrada no Cliente, ele desenvolve de uma forma mais
completa suas idéias apresentadas inicialmente em Psicoterapia e
Consulta Psicológica, reconhecendo que seus princípios podem ser
aplicados a outros campos. (Rogers, 2005)
Em 1967 apresenta o seu modelo de abordagem centrada na pessoa e
a sua filosofia de intervenção não só como um modelo
de psicoterapia, mas também como uma abordagem eficaz em todas
as relações humanas,
quer sejam relações de ajuda, relações pessoais
ou políticas.
Um pouco antes da dimensão espiritual Rogers deu ênfase ao trabalho
com grupos e através deste a crença, de que sua proposta teórica
poderia ajudar na sociedade como um todo – pelo fim da guerra e na
busca pela paz... por isso ele foi indicado ao prêmio Nobel da Paz.
Uma das principais críticas a sua obra diz respeito ao enaltecimento
da bondade humana em frente à negação do seu
lado negativo, da sua maldade. Como resposta, Rogers numa entrevista
concedida a revista
Veja explica:
“Fui
muitas vezes acusado de não compreender a maldade
nas pessoas – e levo a sério este tipo de critica,
isso pode até ser verdade.
Mas cheguei a uma posição, não através de pensamentos
passivos mas através de meus contatos diretos
com pessoas, tanto em terapia quanto
em grupos, ou mesmo em salas de aula, nos quais
percebi que, se confio plenamente em sua capacidade
de se compreenderem melhor e ser mais
autodirigidas, essas escolhem direções que são
sociais e não anti-sociais, ou más. Dizem que
com esse tipo de terapia o indivíduo pode muito
bem ser um melhor ladrão ou um melhor assassino,
e para mim essa
é uma possibilidade bastante lógica. Mas, de
acordo com minhas experiências , isso simplesmente
não acontece. Se ofereço a uma pessoa a possibilidade
de se expressar, de buscar suas próprias direções,
ela não escolhe
ser um melhor ladrão ou coisa semelhante, mas
procura seguir a direção de maior harmonia com
seus companheiros.” (Revista Veja, 1977)
Nos últimos anos de sua vida, principalmente após a morte de sua
esposa, Rogers desenvolve um maior interesse pela dimensão espiritual
do homem, num espírito de liberdade e tolerância, guardando sua confiança
num futuro melhor, sem ignorar todo o sofrimento que faz parte de
nossas trajetórias.
Em 1987, o seu nome é indicado ao prêmio Nobel da Paz.
Rogers faleceu na cidade La Jolla, Califórnia EUA, em 4 de fevereiro de 1987.
Referências
ROGERS, C. R. (2005) Um
Jeito de Ser. 6 reem. (M. C. M, Kupfer; H,
Lebrão; Y. S. Patto, Trad.) São Paulo: E.P.U.,2005.
ROGERS, C. R. Tornar-se
Pessoa. 5 ed 3 tir. (M.J.C, Ferreira e A.
Lamparelli, Trad.) São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ROGERS, C. R. & ROSENBERG, R. A
Pessoa como Centro. São Paulo: E.P.U., 1977.
Entrevista concedida por Carl Rogers, em 1977 a revista Veja. Disponível
em http://www.encontroacp.psc.br/entrevista_rogers.htm. Retirado
em 25/03/2009.

|
|
|